domingo, 25 de setembro de 2011

Evento CEU Feitiço da Vila

            No dia 16 de setembro realizamos a apresentação de nosso trabalho no CEU Feitiço da Vila. Foi um evento grandioso e lá pudemos apresentar nossas práticas inclusivas.
            Contei aos professores sobre o funcionamento da SAAI e a necessidade de parceria entre o ensino regular e especial. Deixei claro que os ditos de um provérbio africano são essenciais para a construção de uma escola inclusiva. Eis o dito popular:

“É preciso toda uma aldeia para educar uma criança”

Adolescência


O grupo de alunos que ficou responsável pelo Blog tem entre 11 e 13 anos, estão no período da puberdade e início da adolescência. Mesmo possuindo uma deficiência visual, não podemos caracterizá-los como sujeitos semelhantes. Na SAAI, por exemplo, temos a Bruna (baixa visão) que é muito tímida, a Vanessa (baixa visão) calada, o Raphael (cego) que é extremamente esperto e arteiro, o Victor (cego), que é a tranqüilidade em pessoa, a Débora (cega) que é muito afetiva e o Gabriel (baixa visão) que é extremamente meigo e carinhoso. Todos têm em comum a vontade de aprender e de serem integrados de forma verdadeira na sociedade.
     A adolescência é uma fase de transição do desenvolvimento humano, caracterizada por mudanças profundas de ordem física e psicológica e os alunos com deficiência visual não fogem desta regra. Percebo que este grupo começa a se despertar em relação à sexualidade e ao interesse pelo outro.  Um enorme desejo de independência em relação à família e a necessidade explícita de aproximarem-se por grupos com interesses semelhantes também são percebidos.
      Isto explica o porquê de amarem estar na SAAI, é o momento que falam das dificuldades encontradas na sociedade como um todo, de suas limitações e principalmente de suas potencialidades muitas vezes não enxergadas por nós videntes.
A fase da adolescência pode ser mais cheias de desafios para um indivíduo com deficiência visual, pois ele terá que construir uma identidade na qual é obrigado a incluir o fato de possuir uma cegueira ou baixa visão, que dependendo do meio cultural, social e escolar, pode torná-lo alvo de exclusão e discriminação.
             Neste contexto é fundamental que o ambiente social no qual esse jovem convive possa de fato aceitar suas necessidades específicas, buscar informações a respeito de suas características, incentivar a aproximação de vínculos afetivos e sociais, colaborando com a construção de uma auto-estima positiva e verdadeira. Partindo destes princípios, poderão alcançar os objetivos como qualquer jovem de sua idade.
Débora, Gabriel e Raphael em café da manhã especial da SAAI

Inglês

            A professora Creusa, da EMEF Jorge Americano, pediu que eu passasse para o Braille os números em Inglês. Ela tinha realizado a atividade com o Raphael em sala regular e ele fez até o número mil, mas tudo em português.
           Avaliei os alunos e percebi que alguns, mesmo tendo aulas de inglês, escrevem o que ouvem literalmente em nossa língua materna. Por exemplo:


Inglês
Como o aluno escreve
Significado
dog
dogui
cão
one
uam
1
teacher
titier
professor

            Realizei com eles a semana do Inglês. Através de jogos, adaptados as suas necessidades, fomos nos habituando a ouvir e escrever as palavras nesta língua. Os alunos não receberem o livro de inglês em Braille, ou em tipos ampliados, não enxergam a lousa e para o colega ditar a atividade é complicado e lento, entre outras questões.
            É claro que em uma semana ninguém aprende inglês, mas foi uma forma de compreender que não necessariamente o que se ouve é o que deve ser escrito.
            Fizemos várias competições e deu para perceber que tendo o cuidado com a adaptação é possível aprender até mesmo inglês.


O quarto de Van Gogh

Um outro exemplo de atividade que fica difícil de ser realizada sem uma adaptação curricular é a leitura de obras de arte. Bruna estava contando que teve que realizar um trabalho com a tela “O quarto de Van Gogh” e não tinha conseguido entender ou melhor ver nada.
No semestre passado, algumas alunas da Estácio, universidade onde ministro aulas no período da noite, realizaram leituras de obras de arte em relevo. Um dos grupos realizou uma maquete com este quadro. Acabei trazendo para a SAAI e usei devido a necessidade de Bruna.
Na verdade todos acabaram aprendendo um pouco sobre Van Gogh, li sobre sua vida e obra, mostrei o quadro em uma reprodução maior e através da releitura das alunas universitárias em forma de maquete.
Depois descrevemos o que observamos. Este é a descrição da Bruna:

O quarto de Van Gogh tem muitas coisas, quadros pendurados, cadeiras, cama, cobertor, travesseiro, roupas penduradas em cabides na parede, pois ele não tinha guarda-roupa, uma mesa com alguns objetos e espelho. Tem uma janela e por ela o quarto fica iluminado. A cama é de solteiro, ele deveria ser sozinho. Parece ser um quarto bem simples e antigo, mas é bonito.

INSETOS


            A ideia de estudar sobre os insetos partiu da necessidade de uma aluna entender melhor o conteúdo que estava sendo trabalhado em sala regular. Comprei alguns insetos em miniatura e outros foram trazidos pela aluna Débora. O grupo como um todo relatou a dificuldade de entender alguns conteúdos que exigem uma visão mais apurada, a observação de detalhes e o uso de imagens muito pequenas.
            Trabalhar com miniaturas de boa qualidade pode facilitar esta compreensão. Tenho meu acervo próprio de flores, dinossauros, insetos, mamíferos e alimentos. Conforme a necessidade, sempre trago para ser utilizado em sala.
            Todos os grupos gostaram de ver os insetos de forma ampliada e como observei um grande interesse, fui trabalhando o tema conforme a faixa etária e as possibilidades. O grupo de adolescentes, responsáveis pelo Blog, teve a ideia de realizar um telejornal, contando sobre o aprendizado realizado. O grupo de alfabetização realizou a leitura da história “A cigarra e a formiga”, realizaram a interpretação, fizeram listas de palavras e reunimos uma coletânea de músicas que tratam esta temática, como “Borboletinha”, “Eufinda, a borboleta linda”, “Formiguinha”, “Barata”, entre outras. Os alunos com deficiências múltiplas foram à parte externa da escola, sentiram os bichinhos, foram apresentados as miniaturas que os representaram, incentivados a falarem sobre os insetos e também ouviram músicas sobre a temática.
            Como ficou muito interessante e significativo para eles, deixarei os trabalhos expostos na “Festa da Primavera” que ocorrerá no próximo sábado, dia 1° de outubro. Venha nos visitar!
Luis Felipe tateando uma formiga

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Tenho o desejo de realizar uma tarefa importante na vida. Mas meu primeiro   dever está em realizar humildes coisas como se fossem grandes e nobres.
Hellen Keller

DORINA NOWILL

Os estudos referentes ao trabalho pedagógico com deficientes visuais no Brasil nos remetem à lembrança de uma das mais importantes e atuantes figuras do País: Dorina Nowill. A professora Dorina de Gouvêa Nowill nasceu em 1919, em São Paulo. Aos 17 anos, em virtude de uma patologia ocular, que a tornou cega, vivenciou as dificuldades para a continuação de seus estudos, principalmente no que se relacionava à aquisição de materiais em braille.
Apesar das dificuldades, foi a primeira aluna cega a matricular-se em São Paulo em uma escola regular, com alunos videntes, formando-se professora na Escola Caetano de Campos. Ainda como aluna, com a ajuda de alguns amigos, conseguiu que a escola implantasse o primeiro curso de especialização de professores para o ensino de cegos em 1945.
Após diplomar-se, viajou para os Estados Unidos com uma bolsa de estudos patrocinada pelo governo americano e freqüentou um curso de especialização na área de deficiência visual, na Universidade de Columbia, realizando estágios nas principais organizações de serviços para cegos (NOWILL,1999, passim). Em sua obra autobiográfica, a autora conta que nos EUA já havia classes especiais nas escolas comuns para cegos e integração no sistema escolar comum.
Fazíamos estágios nos serviços de educação do governo. Observávamos o que se chamava Classes Braille, hoje Salas de Recursos. Conhecemos todo o trabalho dos professores itinerantes e visitamos escolas públicas onde havia crianças cegas integradas. Fizemos estágios com os professores domiciliares. Orientação e Mobilidade, que se denominava locomoção, começou a surgir nessa época e se desenvolveu na sua forma presente com a criação e desenvolvimento dos processos de reabilitação (Ibid., p. 35).

Alunos realizando a leitura da história infantil sobre Dorina Nowill

A autora relata que naquele momento também já se discutia se o ideal na educação de pessoas cegas era ou não o ensino em escolas especiais ou no ensino integrado, o que ainda causa polêmica nos tempos atuais “Naquela época havia uma disputa entre os integracionistas e pessoas como Frampton, que achavam que a solução do problema era através das escolas residenciais só para cegos (NOWILL,1999, p.36).
Nowill relata que também conhecera “classes de conservação da vista”. Salienta que eram compostas por inúmeros equipamentos e recursos para crianças com visão subnormal, mas que hoje, em virtude dos auxílios ópticos – lentes de todos os tipos e formatos, circuitos fechados de televisão para ampliação de textos –, possibilitam a permanência com qualidade dos indivíduos de visão subnormal, na maior parte do tempo, na classe comum, desde que tenham recebido treinamento na utilização desses auxílios. Muitos conhecimentos foram difundidos a partir dessa época no que se relaciona à baixa visão. Hoje se considera que a criança não deve ter a sua visão preservada e sim estimulada.